sábado, 20 de maio de 2017

"Um homem não se governa sozinho"


Porque estamos mal habituados, pensei eu ao ouvir as palavras do meu avô. Há vários dias, semanas até, que a antecipação desta conversa me causava ansiedade e noites em branco. A visão que temos do mundo e da sua realidade é tão divergentemente marcada que temi a sua reacção. Mas enquanto lhes explicava as razões que me levam a sair de casa, por que motivo é importante e premente fazê-lo agora, e como até é positivo uma pessoa viver sozinha antes de se juntar com alguém, a conversa foi bem mais simples e indolor que o esperado. 

De tal maneira que até tive direito a um "tu não tens sido um tipo parvo, és esperto, e fazes as coisas com cabeça", o que, traduzindo para quem não está habituado ao discurso escasso em manifestações de afecto típico desta casa, significa algo semelhante a sentimentos de orgulho. 

Acho que hoje vou dormir descansado.

Wake up call


Pessoas com filhos e que fazem compras, é suposto os cromos, cartas, cadernetas e afins que vêm como brinde para vos obrigarem a ir às compras ao espaço comercial em causa, serem para os vossos filhos coleccionarem, não vocês. Deixem o raio dos miúdos interagirem uns com os outros e deixem-nos ser eles a terminar as colecções com as trocas entre eles. Há lições de vida muito mais interessantes e produtivas nesses momentos do que em apresentar-lhes uma caderneta já terminada com a qual eles nunca tiveram contacto e à qual nunca irão dar valor. Raios partam, há mais lições de vida em não conseguir terminar uma caderneta. Que o digam as minhas cadernetas do Dragon Ball.



domingo, 14 de maio de 2017

O que eu gosto de uma boa ironia



O tipo não canta em inglês e ninguém o vai perceber, o tipo vai com um estilo musical que destoa do habitual naquele concurso, o tipo vai com uma actuação demasiado simples para aquele espectáculo circense, o tipo é um bocado "estranho". O tipo, apesar disso tudo, ganha aquilo com a maior razia de sempre (ler aqui), provando que no final de contas, se dermos alternativas e conteúdo de qualidade ao público, o público curiosamente até sabe apreciar, aprova, e agradece. 
A tradição familiar de assistir à Eurovisão há muito tempo que se andava a tornar um martírio só levemente amenizado pelos momentos caricatos e sui generis  que caracterizam o evento, que hoje foi compensado por este momento "in your face".

Por isso, vou continuar para aqui a rir à gargalhada disto tudo, enquanto aguardo pela transição nas redes sociais dos discursos de "Portugal assim é que não ganha nunca, é uma vergonha!" para os de "Lindo serviço! Pró ano, vamos ter que gastar um balúrdio a organizar esta porcaria. Tenham vergonha!", e enquanto ignoro de forma inquieta a descarada manifestação em força dos 3 F's a que assistimos hoje neste país. Vamos acreditar que amanhã não nos vamos deparar com ninguém a aproveitar a deixa para fugir para Bruxelas. *cof cof 2004 cof cof*



sexta-feira, 12 de maio de 2017

Nem sei... às vezes dá-me para isto.


Hoje, enquanto se conversava ao jantar, apercebi-me que não só é tão fácil, como será certamente o nosso maior mecanismo de defesa no sentido da auto-preservação, assumirmos que nós, e os nossos, somos bons. Com isto quero dizer, boas pessoas. Assumindo a banalidade e o pouco que vou contribuir para o tema, estamos longe disso, somos algo intermédio na melhor das hipóteses. Na realidade somos vítimas do nosso tempo, resultado daquilo que aprendemos. Houve até em tempos quem indicasse que a culpa de quem somos é da nossa mãe.

Aquilo que somos será portanto o aglomerado de tudo aquilo que vivemos e da forma como agimos perante as situações que a vida nos apresentou. No entanto, como também já houve quem o dissesse antes, o todo é mais que a soma das suas partes. No fundo, somos mais que a soma dos momentos em que fomos a típica "boa pessoa" e dos momentos em que fomos seres humanos reprováveis.

Neste caso em particular, acreditando convictamente que não passamos de vítimas das nossas circunstâncias, defino pessoalmente uma "boa pessoa", uma "pessoa espectacular", um "ser humano incrível", pelo conjunto de momentos em que apesar do seu mindset, em detrimento do seu bem-estar, essa pessoa tomou a decisão mais altruísta e mais empática que seria de esperar.

Já uma "má pessoa", um "ser humano execrável", seria por razão da lógica, o seu extremo oposto. Contudo, quando tentamos perceber esse aspecto numa pessoa que nos está próxima, o exercício parece mais difícil por vezes, possivelmente culpa da boa da auto-preservação já mencionada, uma vez que essa pessoa será inevitavelmente um contributo para o resultado daquilo que nós mesmos somos.

Hoje, enquanto se conversava ao jantar, tocou-se no passado. No passado anterior à minha existência. Aquele tempo de que pouco sei, porque nesta casa é tradição atirar os momentos difíceis para baixo do tapete e fingir que não há nada de errado com todo o vulto acumulado lá debaixo. Aproveitei a deixa e fui puxando na esperança de achar o fio à meada e o que encontrei foi um misto de orgulho de levar às lágrimas num conjunto de seres humanos nos quais me orgulho de ser descendente, e de tristeza tremenda daqueles que não conseguiram encontrar a sua humanidade quando ela foi mais necessária.

Hoje enquanto se conversava ao jantar, perguntei-me se serei boa pessoa. A auto-preservação obriga-me a dizer que sim. Na verdade, espero pelo menos ter herdado um pouco daquilo que os meus antepassados tiveram de melhor, e que esse pouco seja suficiente para suplantar aquilo que tiveram de pior.



domingo, 7 de maio de 2017

Momento em que um tipo vai a correr ao calendário confirmar o século em que está



«Irlanda investiga Stephen Fry por blasfémia»
~In Público (ler aqui)


Este século XXI está cada vez mais com um travozinho a idade média...



sexta-feira, 5 de maio de 2017

Libelinha macho me confesso




Daqui




Momento "deita cá para fora"



Cada vez mais constato que quanto mais a sociedade evolui e mais tem acesso à informação, menos crítica é em relação a toda a informação a que é exposta. A ver se nos entendemos, o glúten só é prejudicial a quem sofre de doença celíaca. Não há qualquer benefício comprovado para o resto das pessoas em deixar de consumir alimentos com glúten. E sempre que alguém me perguntar se alguma coisa tem glúten e eu começar a rir-me na sua cara, não o leve a peito, é apenas porque a pergunta me lembra sempre disto:





 Por isso, pessoas do mundo desenvolvido que podem dar-se ao luxo de ser idiotas em relação aos alimentos que ingerem, não sejam memes.





quinta-feira, 27 de abril de 2017

Nada de novo por aqui...



Ele pára o carro perto de casa e vê lá mais ao fundo uma simpática jovem a fazer adeus na sua direcção. Não a reconhece e por isso olha à volta para tentar perceber se a jovem estará a acenar a outra pessoa. Não vê mais ninguém ali, fica entusiasmado e sai do carro estupidamente animado. Fecha a porta do carro enquanto assiste à jovem simpática correr alegremente para o cão que estava a brincar no relvado ao seu lado. Claro que era para o cão.

...

Em minha defesa, quem raio acena a um cão? Ou estou muito desactualizado nisto dos animais de estimação, ou fazer-lhe adeus não constava da lista de formas de chamar a atenção de um cão.



terça-feira, 25 de abril de 2017

Das coisas boas



Passar um 25 de Abril na altura das redes sociais implica ter que assistir a um chorrilho de barbaridades sobre o assunto que faz com que as veias da nossa testa ameacem rebentar da subida de pressão. Como desatar a citar a declaração universal dos direitos humanos por esses facebooks fora e explicar que sem determinado acontecimento a mesma não seria uma realidade neste país não foi suficiente para me fazer voltar a um estado mais calmo e comedido, decidi focar-me em coisas positivas.

E felizmente, de uma forma geral, a música nunca me desaponta nesse aspecto. Como por exemplo, o jovem do vídeo abaixo. É raro encontrar alguém genial, mas sabes que te deparaste com alguém assim quando o tipo consegue deixar-te vidrado em tudo o que está a fazer, sejam originais, colaborações, ou versões, ainda para mais quando nem és fã do estilo musical em causa. Rendido me confesso a Slow J.




Nem tudo o que reluz é ouro...



Aquele momento confrangedor em que tens a responsável de uma secção de um departamento de recursos humanos de uma grande empresa deste país a entrar em contacto directo contigo, mas constatas que não é para te oferecer emprego, mas antes para te pedir autorização para utilizar na sua tese de mestrado um instrumento compilado num artigo científico teu.

Com tanta popularidade que o meu trabalho académico passado tem tido, seria de esperar que a minha vida profissional fosse muito mais interessante e próspera do que realmente é. Um dia perco a vergonha e exijo em troca uma oferta de emprego. Hoje ainda não foi o dia. O espírito científico ganha sempre e eu acabo a partilhar tudo. 

Na verdade, nem eu quereria que fosse de outra forma. Valores não se vendem.